A primeira missão dada pelo presidente Lula ao novo comandante do Exército, general Tomás Paiva, pode enfrentar resistências entre os militares. Na esteira da mudança feita no sábado, Lula sinalizou que espera o cancelamento da nomeação do tenente-coronel Mauro Cesar Barbosa Cid, para o comando 1º Batalhão em Goiânia, cargo estratégico.
Cid era ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro e é investigado no Supremo Tribunal Federal. Mas, generais do Alto Comando do Exército alertam que o recuo na nomeação de Cid precisa ser uma decisão técnica e não política.
É atribuição do comandante da força fazer as designações internas. Ou seja, em tese, o general Tomás pode mudar a designação de Cid.
Para isso, no entanto, segundo militares de alta patente ouvidos pela coluna, é preciso que haja um procedimento interno com “justificativas plausíveis”. A recusa do ex-comandante Júlio César de Arruda em cancelar a nomeação de Cid foi a gota d’água para sua demissão.
O argumento dado por integrantes do governo para que Cid não assuma o Comando é de que o ex-assessor de Bolsonaro “está sub judice” por contas das investigações que avançam contra o militar. A ideia é rechaçada por parte dos fardados.
Na visão de integrantes da caserna, não se pode “condenar quem está sendo investigado”. Além disso, eles argumentam que a nomeação de Cid para o posto já estava decidida desde maio do ano passado quando foi publicada a designação dele e de todos os outros comandantes nomeados para o biênio 2023-24.
Um general afirmou que somente com provas robustas contra Cid é que o novo comandante terá respaldo interno e jurídico para o afastamento.
Mesmo com as resistências internas no Exército, no governo a expectativa é que o novo comandante troque o posto do ex-auxiliar de Bolsonaro.
Reunião do Alto Comando
O novo comandante, que ainda não teve a passagem oficializada em cerimônia militar, começou a despachar e já convocou os generais do Alto Comando para uma reunião amanhã (24) no Quartel-General, em Brasília.
Nesta segunda-feira (23), Tomás teve uma reunião pela manhã com o ministro da Defesa, José Múcio, e iniciou as conversas com auxiliares próximos sobre como pretende trabalhar.
Pelos pares, Tomás é apontado como “legalista” e deve reforçar nas suas mensagens iniciais a tentativa de pacificação entre os militares e o governo. Por isso, a aposta de militares é que no caso do ex-assessor de Bolsonaro, o comandante tomará uma decisão “com calma’.
Tomás e Cid ocuparam mesmo cargo
Dentro da corporação ainda há a defesa da figura do Ajudante de Ordens (AJO), cargo que Cid ocupava no governo Bolsonaro e que o atual comandante, general Tomás, ocupou por anos no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
A função de assessoramento do presidente é feita historicamente por um militar. A proximidade diária costuma estreitar as relações entre o AJO e o presidente.
No caso de Cid, suas funções no governo Bolsonaro foram intensas inclusive durante a campanha eleitoral. Ele era um dos responsáveis por filmar motociatas e agendas de viagens do presidente.
Cid também é apontado por integrantes do governo anterior pela produção daquela apresentação de Bolsonaro para embaixadores questionando as urnas, que também acabou virando alvo da Justiça.
Mesmo reconhecendo as investigações e as desconfianças que pesam sobre Cid, seus pares militares dizem que o ex-AJO de Bolsonaro realizou “os cursos mais difíceis da instituição e é muito preparado para o comando para o qual foi designado”. Ou seja, um afastamento “sem justa causa” poderia causar “traumas” na caserna.
Uol






