“A terra não cresce, mas o povo sim” explica liderana Kuntanawa sobre novas demarcações

Liderança indígena celebra avanços na demarcação e valorização cultural, mas alerta para a necessidade urgente de expandir terras para garantir a sobrevivência das próximas gerações.

O cenário das comunidades indígenas no Acre é marcado por um misto de celebração e vigilância neste 19 de abril. Haru Kuntanawa, uma das vozes mais expressivas da região, observa que o estado alcançou um patamar importante, com aproximadamente 80% de seus territórios indígenas já demarcados.

Para ele, essa segurança jurídica permitiu que os povos avançassem em projetos de sustentabilidade e dignidade, promovendo uma valorização sem precedentes dos conhecimentos tradicionais e da cultura orgânica que define a vida na floresta.

Entretanto, Haru enfatiza que a demarcação atual não é um ponto final, mas um processo que precisa acompanhar o crescimento das populações. Ele aponta que muitos territórios foram estabelecidos sem considerar que, enquanto a terra permanece com o mesmo tamanho, as famílias indígenas continuam a se multiplicar.

De acordo com a liderança, o grande desafio de 2026 e dos anos seguintes reside nos assuntos fundiários, especificamente na homologação e ampliação de áreas para que as futuras gerações não fiquem sem espaço para viver e produzir.

A relação com o ecossistema é descrita por Haru como uma estrutura de subsistência que exige esforço e respeito constante.

“Nossa cultura não é uma cultura mecânica, ou seja, que a gente possa, que a gente tenha ali tudo industrializado, que a gente tenha tudo em mercado. Não, nossa cultura é uma cultura tradicional, ela é uma tradição que ela é orgânica. Ela é, por exemplo, o nosso mercado é a floresta, é os rios. É daqui que a gente tira nosso sustento”. Ele reforça que, diferentemente da facilidade de um supermercado urbano, a busca pelo alimento nas aldeias pode levar um dia inteiro de caminhada, sem a garantia de retorno com a refeição.

Para Haru, o caminho para o fortalecimento dos povos originários passa obrigatoriamente pela integração e pelo respeito mútuo entre indígenas e não indígenas. Ele defende uma união de forças que proteja o meio ambiente, mas que também assegure uma qualidade de vida digna para todos os habitantes da floresta.

“Eu gostaria de dizer para as pessoas que os territórios indígenas são primordiais para a garantia da história dos povos indígenas, da vida dos povos indígenas”, afirma a liderança, encerrando com um chamado para a construção de dias melhores baseados na valorização mútua e na proteção da biodiversidade.

A GAZETA DO ACRE

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