Acre tem 38 terras indígenas e povo que renasceu após ‘ser extinto’

A maior parte dessas áreas já possui situação jurídica homologada, etapa final do processo demarcatório

Neste domingo, 19 de abril, Dia dos Povos Indígenas, o Acre chega à data com um dos mais relevantes patrimônios territoriais indígenas da Amazônia brasileira. O estado abriga 38 Terras Indígenas identificadas, distribuídas entre diferentes regiões e ocupadas por povos como Huni Kuin, Ashaninka, Yawanawá, Katukina, Manchineri, Kulina, Jaminawa, Nawa, Nukini, Puyanawa e outros.

A maior parte dessas áreas já possui situação jurídica homologada, etapa final do processo demarcatório, consolidando o reconhecimento oficial dos territórios tradicionais. Outras seguem em fases administrativas de estudo ou delimitação.

Mais do que números, cada uma dessas terras representa memória, língua, espiritualidade, proteção ambiental e resistência histórica.

Somadas, as áreas oficialmente registradas ultrapassam milhões de hectares de floresta preservada. Entre as maiores terras indígenas do estado estão:

  • Kulina do Médio Juruá – 730 mil hectares
  • Chandless – 538 mil hectares
  • Mamoadate – 313 mil hectares
  • Alto Rio Purus – 263 mil hectares
  • Riozinho do Alto Envira – 260 mil hectares
  • Kampa e Isolados do Rio Envira – 232 mil hectares

Atualmente, o Acre registra 41 línguas indígenas em uso, número considerado modesto em relação a outros estado | Foto: Diego Gurgel, Secom

Esses territórios são fundamentais para a conservação da biodiversidade, proteção de nascentes e manutenção de modos de vida ancestrais.

Seis áreas ainda aguardam conclusão definitiva

Das 38 terras indígenas listadas no Acre, seis ainda estão em etapas anteriores à homologação:

Em estudo de identificação

  • Terra Indígena Estirão – habitada por Kulina e Yaminawá
  • Terra Indígena Jaminawa do Rio Caeté – habitada por Yaminawá
  • Terra Indígena Kaxinawa do Seringal Curralinho – habitada por Huni Kuin (Kaxinawá)
  • Terra Indígena Kuntanawa – habitada por Kuntanawa

Delimitadas

  • Terra Indígena Nawa
  • Terra Indígena Riozinho Iaco – habitada por Manchineri e Yaminawá

As demais já possuem homologação reconhecida pelo governo federal.

A terra indígena mais recente guarda uma história de apagamento

Entre todas as áreas acreanas, a Terra Indígena Nawa simboliza uma das trajetórias mais marcantes do estado.

Nesta semana, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) validou o relatório técnico que identifica e delimita o território tradicional do povo Nawa, localizado entre os municípios de Mâncio Lima e Rodrigues Alves, no Vale do Juruá.

A área reconhecida possui cerca de 65 mil hectares. Com a aprovação do estudo, o processo avança para análise do Ministério da Justiça, que poderá declarar oficialmente os limites da terra e determinar a demarcação física.

Um povo tratado como extinto por quase 100 anos

A história dos Nawa é marcada por violência e invisibilidade.

Durante cerca de um século, documentos oficiais consideraram o povo extinto. O desaparecimento nos registros ocorreu após famílias deixarem áreas próximas à atual cidade de Cruzeiro do Sul ainda no século XIX, fugindo de epidemias, conflitos armados e da expansão econômica sobre a floresta.

Na prática, os Nawa não desapareceram. Eles se dispersaram para sobreviver.

Nawas podem ganhar demarcação de suas terras em breve/Foto: Alexandre Noronha

Muitos passaram a viver como seringueiros durante os ciclos da borracha, submetidos a exploração e perda de identidade forçada. Mesmo assim, mantiveram vínculos familiares, memória coletiva e pertencimento ancestral.

A redescoberta pública da permanência do povo ganhou força a partir dos anos 2000, quando indigenistas localizaram famílias que preservavam a identidade Nawa.

Os Nawa mantêm presença tradicional na região do Rio Moa, dentro e no entorno do Parque Nacional da Serra do Divisor. Ao longo dos anos, enfrentaram novos conflitos após a criação da unidade de conservação sem consulta prévia ao povo indígena.

Lideranças relatam pressões fundiárias, ameaças territoriais e ausência de políticas públicas. Diante da demora do Estado, chegaram a realizar ações simbólicas de autodemarcação.

Agora, o avanço no processo representa mais do que um reconhecimento fundiário: é a reparação histórica de um povo que foi declarado inexistente, mas permaneceu vivo na floresta.

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