Estudo mostra que Amazônia se recupera de incêndios e secas, mas fica mais vulnerável e menos diversa

Pesquisa brasileira com 20 anos de monitoramento descarta tendência à savanização, mas alerta para riscos crescentes

A vegetação da Amazônia demonstra alta capacidade de regeneração mesmo após incêndios, secas severas e tempestades de vento. No entanto, essa recuperação ocorre sob novas condições ecológicas, com perda de diversidade de espécies e aumento da vulnerabilidade a novos eventos extremos. A conclusão é de um estudo publicado em 20 de abril na revista científica PNAS, liderado por pesquisadores brasileiros com base em duas décadas de monitoramento de campo.

A pesquisa foi realizada na Estação Tanguro, em Mato Grosso, região de transição entre a Amazônia e o Cerrado. Os cientistas acompanharam três parcelas de 50 hectares: uma sem queima, uma queimada anualmente entre 2004 e 2010, e outra queimada a cada três anos no mesmo período.

Os resultados mostraram que, com a suspensão das queimadas, a floresta se recuperou com relativa rapidez em seu interior. Nas bordas, porém, o processo foi mais lento, com queda na riqueza de espécies entre 20% e 46% ao longo de 20 anos. A composição original de espécies não foi restabelecida nem após 14 anos, especialmente as chamadas especialistas de floresta, de madeira densa e longa vida.

O estudo também descarta a chamada savanização da floresta. Gramíneas invasoras chegaram a se expandir nas bordas após os incêndios, atingindo pico em 2012, mas recuaram significativamente a partir de 2016 com o fechamento do dossel arbóreo. Não foram registradas espécies lenhosas de savana, mesmo com o sítio experimental localizado a apenas cinco quilômetros de áreas de Cerrado.

“Outro ponto importante é que as árvores cresceram e as gramíneas saíram, sem evidência de savanização. A Amazônia é muito mais diversa, com diferentes tipos de florestas e vulnerabilidades”, afirmou Rafael Silva Oliveira, ecólogo e professor da Unicamp e um dos autores do estudo.

O biólogo Leandro Maracahipes, primeiro autor do artigo e pesquisador na Yale School of the Environment, ressaltou que a resiliência da floresta tem limites. “Mesmo altamente degradadas, as florestas conseguem se recuperar. No entanto, estão muito vulneráveis a novos distúrbios. É preciso preservar”, pontuou.

A fauna local teve papel essencial na regeneração. Mamíferos como antas e macacos, além de aves, foram agentes-chave para o reaparecimento de espécies arbóreas especialistas, por meio da dispersão de sementes.

O cenário futuro preocupa os pesquisadores. Entre agosto de 2025 e janeiro de 2026, o desmatamento na Amazônia Legal atingiu 1.324 km², com redução de 35% em relação ao período anterior. Já a degradação florestal chegou a 2.923 km² no mesmo intervalo. Para 2026, cientistas alertam ainda para a possibilidade de um novo El Niño de alta intensidade a partir do segundo semestre, com potencial para ser o mais severo em 140 anos.

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