Um estudo preliminar desenvolvido na Universidade Federal do Pará, a UFPA, aponta que o suco clarificado de açaí produz efeitos antidepressivos e ansiolíticos em animais em fase de desenvolvimento, além de reduzir o estresse oxidativo em regiões cerebrais ligadas ao comportamento emocional. Os resultados reforçam cientificamente o que comunidades ribeirinhas da Amazônia já relatavam há gerações: o consumo do fruto proporciona uma sensação de relaxamento.
A pesquisa foi conduzida pelo Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia, o CVACBA, em parceria com o Laboratório de Farmacologia da Inflamação e do Comportamento, o LAFICO, ambos da UFPA. O estudo foi liderado pela doutoranda Taiana Simas, com orientação do professor belga Hervé Rogez, coordenador do CVACBA, e da coordenadora do LAFICO.
O produto e a metodologia
O objeto da pesquisa não foi o açaí na forma como é consumido habitualmente. Os pesquisadores trabalharam com o chamado suco clarificado de açaí — um produto biotecnológico obtido por centrifugação e microfiltração da polpa do fruto, que resulta em uma fração aquosa rica em polifenóis, sem fibras, proteínas, carboidratos ou lipídios. A escolha metodológica foi intencional: ao isolar apenas os compostos fenólicos, qualquer efeito observado pode ser atribuído diretamente a essas substâncias, e não aos demais componentes do açaí.
Os testes foram realizados com ratos do sexo masculino em idades equivalentes ao início da adolescência humana, entre 10 e 18 anos. A fase foi escolhida por ser um período de intensa maturação cerebral, com maior sensibilidade a fatores ambientais e estressores. A dose administrada foi calculada com base no consumo médio das comunidades ribeirinhas do entorno de Belém, estimado em cerca de 500 mililitros de açaí por dia.
Os animais receberam o suco livremente por bebedouros durante 12 horas diárias, ao longo de dez dias. Após esse período, foram submetidos a uma bateria de testes comportamentais para avaliar comportamentos ansiosos, depressivos e aspectos cognitivos.
O que os testes mostraram
Os resultados indicaram que o consumo do suco clarificado não alterou a locomoção dos animais — o que descarta a hipótese de que os efeitos observados decorreriam simplesmente de maior ou menor movimentação. Por outro lado, os testes apontaram comportamento ansiolítico: os animais que ingeriram o suco exploraram mais a área central do campo aberto e passaram mais tempo nos braços abertos do labirinto em cruz elevado, comportamentos associados à redução da ansiedade.
No teste do nado forçado, utilizado como indicador de comportamento depressivo, os animais que consumiram o açaí apresentaram menor tempo de imobilidade e maior tempo de escalada — resultados interpretados como efeito do tipo antidepressivo.
Proteção cerebral contra o estresse oxidativo
Além dos efeitos comportamentais, o estudo avaliou o impacto do suco clarificado sobre o estresse oxidativo em diferentes regiões cerebrais. No córtex pré-frontal — área ligada à emocionalidade e à tomada de decisão — foi observado aumento da glutationa peroxidase, enzima antioxidante que protege as células contra danos causados por radicais livres. O resultado indica menor acúmulo de espécies reativas de oxigênio e maior proteção celular.
Na amígdala, região do sistema nervoso central relacionada ao processamento de emoções, o açaí promoveu redução do dano oxidativo — efeito que, segundo os pesquisadores, contribuiu para os resultados comportamentais observados. No hipocampo, outra área relevante para o comportamento, houve aumento da atividade da enzima catalase, reforçando a regulação das defesas antioxidantes do cérebro.
Os compostos responsáveis por esses efeitos são as antocianinas — especialmente a cianidina-3-glucosídeo e a cianidina-3-rutinosídeo —, substâncias fenólicas que dão ao açaí sua característica cor roxa e que já haviam sido associadas a outras propriedades benéficas do fruto, como ação anti-inflamatória, anticancerígena, cardioprotetora e neuroprotetora.
Resultados promissores, mas ainda preliminares
Os próprios pesquisadores fazem questão de destacar os limites do estudo. Os testes foram realizados exclusivamente em animais e ainda não há dados sobre os efeitos em humanos. Mais pesquisas são necessárias para identificar completamente as vias biológicas relacionadas aos efeitos ansiolíticos e antidepressivos do fruto.
Ainda assim, os resultados são considerados promissores. O interesse científico pelo açaí partiu justamente do que as comunidades ribeirinhas já sabiam: o fruto, consumido desde os primeiros anos de vida nessas regiões, é associado a uma sensação de bem-estar e relaxamento. A pesquisa da UFPA avança no caminho de traduzir esse conhecimento tradicional em evidência científica.






