Osmarina tem 75 anos, nove filhos criados, sete netos e uma certeza que carrega com orgulho: ser mãe foi a missão mais importante da sua vida. Com voz firme e olhos marejados, ela contou sua história enquanto vendia mudas de plantas no mercado do Agricultor em Cruzeiro do Sul, no interior do Acre. Para chegar ao local, acordou às 2h30 da madrugada. Não cogitou faltar.
A trajetória de Osmarina começa nos seringais da Amazônia, mais precisamente no Grajaú, área de difícil acesso no interior do estado. Foi de lá que ela partiu, com muito sacrifício, até chegar à cidade onde vive hoje. A jornada não foi apenas geográfica. Ela perdeu a mãe cedo, ainda criança, e cresceu tendo que trabalhar nas casas de outras famílias para sobreviver.
“Fiquei sem mãe cedo. Ralei muito, sofri pelas casas dos outros. Mas venci”, disse ela, em tom sereno, sem amargura.
A ausência da mãe deixou uma marca que Osmarina nunca esqueceu, e que, de certa forma, moldou quem ela se tornaria. Ainda jovem, foi acolhida pelas irmãs dominicanas em Porto Walter, município acreano às margens do rio Juruá. As freiras, segundo ela, a adotaram com carinho e dedicação. “Consegui uma mãe. As dominicanas em Porto Walter me adotaram com muito sacrifício”, recordou.
No dia 5 de maio deste ano, Osmarina completou 55 anos de casada. Da união, vieram nove filhos, todos criados por ela. Um deles é médico, formado e atuando em São Paulo. Além dos filhos, ela também ajudou a criar sete netos. A matemática da sua vida é feita de gente.
Ao longo do relato, Osmarina foi categórica ao afirmar que a maternidade não é tarefa fácil, mas que jamais trocaria a experiência. “Ser mãe é carregar uma cruz nos ombros. Com problemas, com dificuldades. Mas é muito importante”, afirmou. Questionada se repetiria a escolha, a resposta foi imediata: “Se eu nascesse de novo e fosse para ser mãe, eu seria novamente.”
Ela também falou sobre um dos momentos mais dolorosos da vida: a perda de um filho, há dez anos. Mesmo diante da dor, Osmarina não se fechou. Continuou presente para os outros filhos, para os netos e para a comunidade. As vendas do fim de semana, disse ela, é exatamente isso: “Aqui é encontrar amigos, conversar, dialogar.”
Com firmeza, Osmarina fez um apelo às mães que, segundo ela, não reconhecem o valor da maternidade. Citou especificamente os casos de filhos com dependência química, situação que, para ela, exige ainda mais amor, não abandono. “Aqueles drogados é o que mais a gente deve amar. Porque no futuro são eles que vão cuidar da gente”, disse.
O discurso de Osmarina também teve espaço para um dos gestos que ela mais valoriza: o filho que pede a bênção à mãe. Quem perdeu a mãe cedo, como ela, sabe o peso desse gesto simples. “Tenho inveja de quem tem sua mãe. Quem tiver sua mãe, zele por ela”, pediu, emocionada.
Para encerrar, ela recorreu a uma cantiga popular que guarda consigo há décadas: “Minha mãe, minha mãe, oh, minha mãe, minha amada. Quem tem mãe, tem tudo. Quem não tem mãe, não tem nada.”
Osmarina não tem escolaridade elevada, não tem microfone permanente, não tem palanque fixo. Mas tem uma história que atravessa rios, florestas e décadas, e que, no Dia das Mães, chegou com força total às pessoas que a ouviram falar, de pé, às 2h30 da madrugada, prontas para seguir em frente.
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