Estudo multidisciplinar busca avanços no tratamento de acidentes com serpentes na amazônia
O Brasil registra uma média de 29 mil acidentes com serpentes por ano, levando a cerca de 130 mortes. A Amazônia é a região com o maior número de casos, abrigando 38 das 75 espécies de serpentes peçonhentas registradas no país. Diante de uma picada de serpente em uma área remota da Amazônia, questões vitais surgem: qual é a composição do veneno? Os soros disponíveis comercialmente neutralizam de forma eficaz esse veneno? Há uma distribuição desses antivenenos na região? Como tratar os efeitos locais das picadas além da soroterapia?
Para responder a essas perguntas, um estudo multidisciplinar coordenado por pesquisadores da Universidade Federal do Acre (UFAC), Instituto Federal do Acre (IFAC), Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Instituto Butantan e outras instituições, está em andamento. A equipe de herpetólogos e outros profissionais busca serpentes peçonhentas nas florestas do estado do Acre e envia os espécimes vivos para o Instituto Butantan para estudo.
O projeto, intitulado “Avanços no tratamento dos acidentes ofídicos: estudos pré-clínicos e clínicos, tratamentos alternativos e descentralização da distribuição de antivenenos para áreas remotas da Amazônia”, foi aprovado no Edital Iniciativa Amazônia+10 (das Fundações de Amparo à Pesquisa, FAPs, e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, CNPq). O objetivo é obter mais conhecimento sobre a composição dos venenos das serpentes da Amazônia e avaliar se esses venenos são reconhecidos pelos antivenenos comerciais.
Além disso, o projeto propõe tratamentos adjuvantes, como o uso de inibidores enzimáticos, principalmente para o tratamento dos efeitos locais da picada. Também pretende validar o protocolo de distribuição dos antivenenos em áreas remotas da Amazônia, a partir de sua descentralização.
Para o desenvolvimento das pesquisas, é necessário encontrar as serpentes peçonhentas na natureza. Para isso, a equipe realiza expedições, especialmente para o Parque Nacional da Serra do Divisor, localizado no extremo oeste da Amazônia brasileira. A viagem até lá começa por via terrestre, com 35 Km saindo de Cruzeiro do Sul até o Porto do Japiim, em Mâncio Lima. A partir do porto, a viagem é feita de barco pelo Rio Moa e pode levar de 8 a 12 horas, dependendo do tipo de embarcação e da época do ano.
Durante as expedições, que geralmente duram pelo menos cinco dias, a equipe precisa tomar certos cuidados. Além das serpentes, é preciso se prevenir de mosquitos transmissores de doenças como a Malária e de outros animais peçonhentos presentes na região, como arraias, aranhas e escorpiões. Outros perigos incluem tempestades quando estão dentro das florestas, devido ao risco de raios e árvores que podem cair.
As serpentes peçonhentas geralmente apresentam hábitos noturnos e, para encontrá-las, os herpetólogos fazem buscas noturnas em trilhas nas florestas. Quando encontram as serpentes, elas são capturadas cuidadosamente e transportadas em caixas até a Universidade, de onde são posteriormente enviadas para o Instituto Butantan, em São Paulo, para a pesquisa dos venenos.
Em algumas expedições, a equipe chegou a capturar mais de 20 serpentes. No entanto, nas duas últimas expedições, em dezembro de 2023 e fevereiro de 2024, foi encontrada praticamente a metade do número habitual de serpentes. Acredita-se que o evento climático recente do “El Niño” tenha contribuído para a menor frequência de encontro das serpentes, devido a alterações no regime das chuvas na região.
A próxima expedição para a região está prevista para o final deste ano ou início de 2025. Conhecer mais sobre essas serpentes pode ajudar a produzir tratamentos mais eficazes e mais bem distribuídos pela região amazônica.
JURUA24HORAS