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Cruzeiro do Sul

Bebês reborn e a linha frágil entre o afeto e a fantasia

Por Redação Juruá 24 horas 16/05/2025 09:06 Atualizado em 16/05/2025 09:06
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Foto: Internet

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Nos últimos dias, um tema inusitado ganhou espaço nas redes e na imprensa: o uso dos chamados “bebês reborn”, — bonecos hiper-realistas — como se fossem crianças reais, a ponto de algumas pessoas tentarem levá-los para atendimentos médicos no SUS. A princípio, a situação pode parecer apenas uma excentricidade, mas ela revela algo muito mais profundo e preocupante: a maneira como a dor emocional, quando não reconhecida ou tratada, pode se deslocar para espaços inadequados — e até perigosos.

Esses bonecos, em muitos casos, são buscados por pessoas em luto, em solidão ou em sofrimento psíquico, funcionando como uma tentativa de preencher vazios afetivos. Não se trata, portanto, de ridicularizar quem recorre a esse tipo de vínculo. Pelo contrário: é preciso reconhecer que há ali uma dor legítima, ainda que expressa de forma simbólica. O problema não é o afeto projetado, mas o lugar onde ele tenta se manifestar.

Quando o espaço privado da dor ultrapassa os limites e alcança o serviço público de saúde — como consultas médicas para bonecos no SUS —, entramos em uma zona crítica. O Sistema Único de Saúde é um patrimônio coletivo, essencial para milhões de brasileiros que enfrentam doenças reais, filas longas e muitas vezes a urgência da sobrevivência. O acolhimento à dor emocional não pode acontecer à custa da responsabilidade com o coletivo.

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Este caso específico lança luz sobre algo maior: a crescente fragilidade emocional da sociedade contemporânea. Vivemos em um tempo de sobrecarga emocional, solidão digital e vínculos cada vez mais frágeis. A dor, cada vez mais invisível, busca formas de ser notada. E quando não encontra escuta, apoio ou sentido, passa a se manifestar de forma distorcida, muitas vezes misturando fantasia e realidade.

Estamos diante de um cenário onde há, claramente, uma inversão de valores. O essencial — como o cuidado com a saúde pública, a empatia pelos que sofrem de fato, e o bom senso — cede espaço a comportamentos que relativizam o real em nome do sentir. Isso não significa negar a dor de ninguém. Mas é necessário recolocar os limites: entre o simbólico e o prático, entre o que é pessoal e o que é público, entre a necessidade emocional e o uso responsável dos recursos coletivos.

Mais do que um caso isolado, essa situação é o reflexo de uma sociedade adoecida — emocionalmente carente, afetivamente desorganizada e, muitas vezes, sem canais adequados de cuidado. O Estado, os profissionais de saúde, os meios de comunicação e todos nós temos um papel: acolher sem conivência, escutar sem endossar distorções, e criar espaços reais de cuidado para que o invisível não precise buscar atenção onde não cabe.

O SUS é sagrado porque é real. E a dor também é real, ainda que invisível. O desafio do nosso tempo é garantir que ambas recebam o cuidado certo — no lugar certo, da forma certa, e com o equilíbrio que uma sociedade madura precisa aprender a reconstruir.

Por Dayana Maia 

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