Família de brasileiro denuncia que jovem foi enganado e forçado a servir no Exército russo na guerra da Ucrânia
A família do brasileiro Marcelo Alexandre da Silva Pereira, de 29 anos, natural de Roraima, vive momentos de angústia e busca ajuda urgente do governo brasileiro para trazer o jovem de volta ao país. Segundo os parentes, Marcelo foi atraído por uma falsa promessa de emprego como motorista na Rússia, mas, ao chegar ao país, foi obrigado a assinar contrato com o Ministério da Defesa russo e incorporado ao Exército, em meio à guerra contra a Ucrânia.
Marcelo, que vivia em Boa Vista com a companheira Gisele Pereira, de 24 anos, grávida, e os três filhos pequenos, viajou para Moscou no dia 30 de novembro e chegou ao destino no dia 3 de dezembro. No dia 9 de dezembro, conforme relato da família, ele foi forçado a assinar um contrato em russo, idioma que não domina, no qual consta que atuará como atirador com fuzil AK-74.
A proposta inicial partiu de um amigo brasileiro que também reside em Boa Vista. Esse conhecido ofereceu um emprego civil bem remunerado, com a promessa de que em 20 dias Marcelo já enviaria dinheiro para a família. O passaporte foi emitido com ajuda de um homem ligado a uma empresa de São Paulo, que se apresenta nas redes sociais como assessoria para ingresso no Exército russo. A passagem aérea foi comprada pela mesma empresa no dia 28 de novembro.“Ele falou assim: ‘amor, tô com saudade. Tenta acionar o consulado daqui, pois não tô conseguindo entrar em acordo com o pessoal, pois eles não me entendem e eu nem entendo eles. Já pedi para o subcomandante me tirar daqui e expliquei que vim por uma falsa promessa de emprego civil. Mas eles não tão me dando ouvido’”, relatou Gisele.
A companheira suspeita de tráfico humano e acredita que o amigo recebia comissão por cada pessoa levada ao esquema. Marcelo não possui experiência militar, não fala russo nem inglês, e o cartão bancário dele ficou com a empresa responsável pela assessoria.
A família acredita que o jovem esteja atualmente em Luhansk, na Ucrânia ocupada, onde passaria por treinamento militar. Em contatos esporádicos pelo Telegram, Marcelo reforça o desejo de voltar para casa e afirma estar sendo impedido de sair. O último contato mais consistente ocorreu no dia 5 de dezembro, mas Gisele relata que consegue falar com ele de forma intermitente.
A mãe de Marcelo, Alessandra da Silva, de 47 anos, conta que o filho estava desempregado, endividado e pressionado por cobrança de pensão. Ela só soube da viagem quando ele já estava em São Paulo, em conexão para Moscou.
Itamaraty acompanha o caso
Em nota, o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) informou que a Embaixada do Brasil em Moscou tem conhecimento do caso e presta a assistência consular cabível ao cidadão brasileiro. Gisele procurou o órgão pela primeira vez no dia 27 de dezembro e, nesta terça-feira (30), recebeu a informação de que seria enviado um pedido de extradição para o retorno de Marcelo ao Brasil.“Esses casos acontecem”, teria dito um atendente do consulado ao jovem, segundo a família, que reforça que Marcelo não é o primeiro brasileiro a passar por situação semelhante. Em novembro, a embaixada brasileira em Moscou já havia emitido alerta contra o alistamento voluntário de brasileiros em forças armadas estrangeiras, devido ao aumento de mortes e dificuldades para deixar o serviço.
A guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022 com a ofensiva autorizada pelo presidente Vladimir Putin, já causou milhares de mortes, milhões de refugiados e combates intensos, sobretudo no leste e sul do país.A família pede intervenção urgente das autoridades brasileiras. “O meu foco é apenas tirar ele de lá. Não quero brigar com ninguém. O que eu quero é que o Brasil me ajude, que as autoridades competentes intervenham em casos como esse envolvendo brasileiros”, desabafou Gisele.
Infomações G1