Orelhões resistem no Vale do Juruá, mas caminham para o fim definitivo
Símbolos de uma era em que a comunicação dependia de fichas e cartões telefônicos, os orelhões estão cada vez mais raros no Brasil. No Acre, especialmente no Vale do Juruá, esses equipamentos ainda resistem em algumas localidades, principalmente em áreas afastadas dos centros urbanos, mas já têm data marcada para começar a desaparecer.
Dados da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) apontam que o estado possui atualmente 139 telefones públicos instalados, dos quais 92 ainda estão em funcionamento. A maior parte pertence à operadora Claro, enquanto uma parcela menor é operada pela Oi. Mesmo ativos, muitos desses aparelhos têm uso cada vez mais limitado, reflexo da expansão da telefonia móvel e da internet.
No Vale do Juruá, municípios como Cruzeiro do Sul, Mâncio Lima, Rodrigues Alves, Marechal Thaumaturgo e Porto Walter ainda mantêm orelhões instalados. Em Cruzeiro do Sul, por exemplo, existem oito aparelhos distribuídos em pontos específicos. Já Mâncio Lima e Marechal Thaumaturgo contam com seis unidades cada, enquanto Rodrigues Alves possui 11. Em Porto Walter, o número chega a quatro.
A presença desses telefones é mais comum em áreas rurais, comunidades tradicionais, seringais e regiões de difícil acesso, onde o sinal de celular ainda é instável ou inexistente. Em locais como aldeias indígenas e áreas de floresta, o orelhão continua sendo, em alguns casos, o único meio de comunicação disponível para emergências.
Apesar disso, a tendência é de retirada gradual. Com o fim das concessões do serviço de telefonia fixa, a Anatel prevê que, a partir de janeiro de 2026, terá início a remoção em larga escala dos aparelhos desativados. A manutenção dos orelhões ficará restrita apenas às localidades sem cobertura de telefonia móvel, e mesmo assim apenas até 2028.
Em todo o país, cerca de 38 mil orelhões ainda permanecem instalados. Um número muito distante do auge do sistema, que já ultrapassou 1,5 milhão de terminais espalhados pelo Brasil. Criados em 1972, os equipamentos têm design assinado pela arquiteta Chu Ming Silveira e marcaram gerações como um dos principais meios de comunicação pública.
No Vale do Juruá, os orelhões hoje representam mais do que um serviço: são vestígios de uma época em que a comunicação era limitada, mas essencial. Com a modernização das redes e a ampliação do acesso à tecnologia, esses símbolos urbanos caminham para se tornar apenas parte da memória coletiva da região.