Endividado: consome sem pensar e depois chora no boleto
A cena se repete em diferentes cantos do país: não há carros disponíveis para alugar, hotéis operam com alta ocupação, aeroportos vivem cheios e restaurantes seguem movimentados. Em Rio Branco, duas das maiores locadoras do Brasil não tinham um único veículo disponível. Em Porto Seguro, o roteiro foi o mesmo. No Acre, em Porto Velho ou na fronteira de Brasiléia com Epitaciolândia, a sensação é clara: o consumo está vivo e forte.
Mas, ao mesmo tempo, os números mostram um país atolado em dívidas. Milhões de brasileiros inadimplentes, programas do governo oferecendo descontos de até 90% para renegociação e um discurso generalizado de aperto financeiro. Afinal, como essas duas realidades convivem?Descobrir maisMeio Ambiente AcrePublicidade Jornais LocaisNotícias Locais ImpressasFornecedores de serviços telefónicosPolítica de PrivacidadeNotícias BrasilAssinatura Notícias DigitaisNotícias EsportivasNotícias Locais AcreNotícias Online Acre
A resposta não é simples, mas passa por alguns fatores centrais.
Primeiro, o acesso ao crédito. O Brasil consolidou, nos últimos anos, uma cultura de consumo altamente dependente de parcelamentos, cartões e financiamentos. Não é incomum que viagens, eletrônicos e até despesas do dia a dia sejam bancados com dinheiro que ainda não existe, ou que já está comprometido. O consumo, portanto, não reflete necessariamente renda disponível, mas sim capacidade de endividamento.
Segundo, há uma mudança comportamental importante: o brasileiro passou a priorizar experiências. Viajar, sair para comer, frequentar eventos, tudo isso ganhou peso na decisão de gasto, muitas vezes acima de compromissos considerados “essenciais”. É o consumo emocional, que responde mais ao desejo imediato do que ao planejamento financeiro.
Outro ponto é a falsa sensação de liquidez. Aplicativos de crédito rápido, limite alto no cartão e facilidades digitais criam a impressão de que há dinheiro sobrando. Na prática, trata, se apenas de antecipação de renda futura muitas vezes já comprometida.
E há ainda um elemento novo e preocupante: o crescimento dos jogos virtuais de aposta, como o popular “tigrinho”. Para uma parcela da população, o dinheiro não está sendo apenas gasto, está sendo perdido. E rapidamente. Isso agrava o endividamento e distorce ainda mais a percepção de realidade financeira.
O resultado é esse Brasil paradoxal: cheio nos aeroportos e nos cadastros de inadimplentes. Um país onde falta carro para alugar, mas sobra dívida no nome. Onde o lazer cresce junto com o descontrole financeiro.
Os programas de renegociação lançados pelo governo são, nesse contexto, uma tentativa de reorganizar esse caos. Mas atacam mais o efeito do que a causa. O problema central continua sendo a falta de educação financeira e uma cultura de consumo imediatista.
No fim das contas, o Brasil não é um enigma, é um país onde o consumo deixou de ser reflexo da renda e passou a ser movido por crédito, desejo e, muitas vezes, ilusão.
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