Após mãe ser morta por conta de boato no AC, MP alerta para o perigo das notícias falsas: ‘fake news mata’

O promotor ressaltou ainda que possíveis linchamentos e outras agressões motivados por supostas vinganças não condizem com a democracia.

Após o assassinato bárbaro de Yara Paulino da Silva, de 28 anos, no conjunto Cidade do Povo, em Rio Branco, o Ministério Público do Acre (MP-AC), que acompanha o caso, reforçou uma campanha contra a divulgação de informações e notícias falsas.

A iniciativa foi tomada após as investigações apontarem que Yara foi morta por conta de um boato que, falsamente, a acusou de ter matado a própria filha, Cristina Maria, de apenas três meses. Uma ossada chegou a ser apontada como os restos mortais da menina, mas, segundo análise do Instituto Médico Legal (IML), tratava-se de ossos humanos. 

Com isso, a polícia trabalha com a linha investigativa de que a falsa informação levou à morte de Yara pelo chamado ‘”tribunal do crime”. Membros de uma facção criminosa, motivados pelo boato, determinaram a morte dela, que foi assassinada a pauladas na frente de casa. Outros dois filhos de Yara presenciaram o crime, e a recém-nascida segue desaparecida.

“É importante que todas as pessoas que recebam via WhatsApp ou qualquer outro meio de comunicação uma notícia, que elas chequem essas notícias. Se essas notícias são verdadeiras, se elas são falsas, e busque informações verídicas a respeito disso. Nós vivemos em tempos em que a rede mundial de computadores, o WhatsApp, o Instagram, ele propicia uma divulgação muito rápida das notícias. E isso tem causado essa onda de ódio, de discurso de ódio, de raiva, de enfurecimento da população”, destacou o promotor Thalles Ferreira.

Por meio de uma publicação em uma rede social, o MP também alertou para a cautela no compartilhamento de informações, especialmente na internet. “Um boato se espalhou. Quando a verdade apareceu, uma pessoa tinha sido morta”. Fake news mata”, afirma a postagem. 

O promotor ressaltou ainda que possíveis linchamentos e outras agressões motivados por supostas vinganças não condizem com a democracia. 

Para evitar tragédias semelhantes, afirmou, é preciso que tanto o público quanto veículos de mídia tenham cautela quanto às informações divulgadas. 

“Lembrando que a gente vive em umEstado Democrático de Direito, existe um sistema de justiça, um que não se permite uma vingança privada, que as pessoas vão lá e matem uma pessoa em virtude de uma vingança privada.  Então, o Ministério Público orienta para as pessoas que elas chequem as informações, se as informações são verdadeiras. Vá à internet, procure se a informação é verdadeira, procure o Ministério Público, se essa informação é verdadeira. Tem inúmeros sites de checagem se a informação é fake ou se a informação é verdadeira. Não disseminar, não divulgar essas informações, inclusive divulgar informações falsas pode ser considerado um crime, uma violação”, enfatizou.

De acordo com o MP, Yara tinha outros dois filhos além da bebê desaparecida, sendo uma criança de 10 anos e outra de 2 anos, que viram a mãe sendo morta e que, agora, estão sob cuidados de uma irmã dela, abrigada no Parque de Exposições Wildy Viana por conta da cheia do Rio Acre

Ainda conforme o MP, as crianças presenciaram o crime e ficaram muito abaladas emocionalmente. A família está sendo atendida por psicólogos e assistentes sociais do Centro de Atendimento à Vítima (CAV) e do Núcleo de Atendimento Psicossocial (Natera). 

“Estavam bastante abaladas, elas se agarraram às psicólogas, se agarraram às assistentes sociais, foram acalmadas naquele momento ali, demorou um pouco para elas poderem se estabilizar e terem um atendimento humanizado, elas foram ouvidas pela psicóloga, pela assistente social, tiveram a confiança ali, puderam ficar até que a tia providenciasse todo o velório. No momento em que a tia buscava a assistência social do município e providenciasse o enterro da vítima, as crianças ficaram ali junto com a assistente social e a psicóloga do Ministério Público”, acrescentou o promotor Thalles Ferreira.

Além disso, segundo o MP, as equipes também estão cumprindo os trâmites para o registro civil de uma das crianças, que ainda não tem a documentação. 

“Tivemos conhecimento no dia de ontem [terça, 25] desses fatos, e que os filhos, que no nosso entendimento são vítimas diretas, porque presenciaram esse crime brutal contra a mãe deles, estavam abrigados no Parque de Exposição, em virtude do fato de a tia de um deles lá se encontrar. O CAV e o Natera, então, se dirigiram até o Parque de Exposições para prestar esse atendimento humanizado, qualificado, através de suas psicólogas e assistentes sociais”, explicou. 

Menina desaparecida

A filha mais nova de Yara, a recém-nascida identificada como Cristina Maria, segue desaparecida e foi incluída na plataforma Amber Alert, sistema que compartilha informações sobre crianças desaparecidas por meio de alertas em redes sociais e outras páginas. 

No anúncio sobre o desaparecimento da menina, ela é descrita como branca, de olhos castanhos, cabelos lisos e castanhos. O alerta também informa que ela foi vista pela última vez no dia 15 de março.

O serviço, que é uma parceria entre o Ministério da Justiça e Segurança e a plataforma Meta, busca fazer as informações alcançarem o maior número possível de pessoas que possam contribuir com relatos à polícia.

Ex-marido disse que filha foi raptada

De acordo com o delegado Alcino Junior, o ex-marido de Yara disse à polícia que a filha do casal está desaparecida há cerca de três semanas. A polícia também apurou que a vítima apontava o ex-companheiro como possível responsável pelo desaparecimento da criança.

A Delegacia de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) também ressaltou que a ossada encontrada em uma área de mata do conjunto habitacional, na verdade, não era humana, mas sim de um cachorro. A polícia ouviu testemunhas na noite de segunda e segue com as oitivas. 

Porém, ainda conforme as investigações, os pais não comunicaram o desaparecimento da filha às autoridades. A polícia segue à procura da criança.

“Então, foi ouvido o pai dessa criança, a notícia que se tem é que essa criança teria sido raptada, há cerca de 3 semanas. Essa notícia foi veiculada pela própria mãe, agora morta, e se dizia que o pai poderia ter sido o autor do rapto da própria filha. Isso não era de conhecimento das autoridades, isso não tinha um registro de ocorrência, um boletim de ocorrência afirmando desse desaparecimento”, explicou.

Vítima de ‘disciplina’

O que já foi levantado pela polícia é quea menina também não possui registro de nascimento, e que o serviço foi negado em um cartório por conta de erros nos documentos dos pais. O casal não voltou a buscar o registro.

Ainda segundo a polícia, a principal linha de investigação é que a mulher foi vítima de “disciplina” por membros de uma facção criminosa por conta da suposta morte da criança, e não de um linchamento de outros moradores.

A equipe também divulgou um contato através do qual testemunhas podem encaminhar informações e possíveis imagens das agressões que tiraram a vida da mulher. Os materiais podem ser enviados através do contato (68) 99912-2964.

“Então, ontem a gente já começou a ouvir algumas testemunhas, hoje continuamos ouvindo outras pessoas. O que tem até agora seria essa motivação mesmo, que está meio que confirmada, que seria em decorrência da suposta morte da criança, e que seria por meio de facção criminosa. Então, a gente já tem alguns suspeitos, não podemos afirmar que teriam executado a vítima, mas que estariam no local. Mas isso, por ser uma investigação sigilosa, a gente não poderia revelar agora, e para também não atrapalhar no andamento das investigações”, acrescentou o delegado Leonardo Ribeiro, responsável pela apuração.

Por G1 

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