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Xamanismo Surge como Aliado na Proteção da Amazônia e Valorização dos Saberes Tradicionais no Acre

As aldeias em nove municípios do estado realizam mensalmente vivências com cerimônias de ayahuasca, aplicações de kambô (secreção extraída da rã Phyllomedusa bicolor) e rapé. Estes eventos atraem milhares de

No Acre, o xamanismo está emergindo como um caminho alternativo para a proteção da floresta amazônica e fortalecimento dos saberes tradicionais. Festivais com cânticos, rezas e práticas de cura, proporcionando uma imersão na vida e cultura de diferentes etnias, estão se multiplicando na região. Esses eventos representam também uma oportunidade de geração de renda para dezenas de povos indígenas, configurando o que se denomina etnoturismo.

(O xamanismo pode ser definido como o conjunto de práticas rituais e ancestrais que tem como objetivo estabelecer contato com o mundo espiritual. Os rituais xamânicos são realizados mediante músicas, danças e consumo de enteógenos, como a ayahuasca e cogumelos alucinógenos.)

As aldeias em nove municípios do estado realizam mensalmente vivências com cerimônias de ayahuasca, aplicações de kambô (secreção extraída da rã Phyllomedusa bicolor) e rapé. Estes eventos atraem milhares de pessoas, não apenas do Brasil, mas de vários outros países, sendo julho e agosto os meses com maior concentração de eventos. A renda anual das aldeias que recebem turistas varia de 150 mil a 2 milhões de reais, conforme informações do governo do Acre, que este ano inseriu 20 festivais indígenas no calendário oficial do estado. Estrangeiros, principalmente da Europa, compõem a maior parte do público.

Embora brasileiros também participem, geralmente chegam por meio de agenciadores que vendem pacotes fechados de vivências com ayahuasca e outras medicinas tradicionais. Os municípios que sediam os eventos incluem Porto Walter, Assis Brasil, Marechal Thaumaturgo, Feijó, Tarauacá, Mâncio Lima, Cruzeiro do Sul, Jordão e Santa Rosa do Purus. As etnias Huni Kuin, Yawanawá, Ashaninka, Puyanawa e Shanenawa destacam-se com festivais turísticos consolidados e com um público fiel de brasileiros e estrangeiros que retornam anualmente. A atividade movimenta não só a economia dos territórios indígenas, mas também setores como hotelaria, transporte, comércio local e serviços.

Ainda não há uma contabilização exata do fluxo de viajantes em busca do etnoturismo no estado. “Não temos um número exato, porque as lideranças não têm o hábito de monitorar essa informação, mas estamos trabalhando nisso, incentivando e orientando o registro”, disse o governador do Acre, Gladson Cameli.

Entre 2022 e 2023, o Acre recebeu turistas, principalmente dos Estados Unidos, Alemanha e Portugal, segundo dados da consultoria ForwardKeys e da Embratur. “Não podemos afirmar que todos chegaram ao estado com o objetivo de participar dos festivais e vivências indígenas”, pondera Cameli. Contudo, o governador reconhece que o etnoturismo tornou-se a principal atração local, auxiliando na preservação das florestas e criando novas oportunidades econômicas. “A fomento ao etnoturismo contribui com novas formas de geração de renda nessas comunidades e reduz o desmatamento e queimadas para a produção agrícola”, afirma.

O governo do Acre apoia estes festivais não só com recursos financeiros, mas também com projetos sociais de educação, saúde e suporte básico das aldeias. No ano passado, foi criada a Secretaria Extraordinária de Povos Indígenas do Estado (Sepi) para implementar políticas públicas em prol dos direitos dos povos indígenas. Cameli destaca investimentos em obras para melhorar a acessibilidade aérea e rodoviária e a infraestrutura na capital e no interior, embora o volume de recursos aplicados não tenha sido divulgado.

Aproximação com Celebridades

O festival Mariri dos Yawanawá, um dos maiores e mais conhecidos do circuito de etnoturismo do Acre, está previsto para acontecer de 10 a 15 de agosto na Aldeia Mutum, em Tarauacá. No ano passado, o evento reuniu cerca de 2 mil pessoas. A popularização desses encontros também se deve à aproximação de indígenas com artistas famosos e sua participação em grandes eventos e campanhas.

Os Yawanawá, por exemplo, acumularam participações em projetos com DJ Alok, marcas como Chilli Beans e Farm Rio, aumentando a curiosidade e o fluxo de visitantes às aldeias. Celebridades como Richard Rasmussen, Letícia Spiller, Joaquim Phoenix, James Cameron e Francisco Costa também têm visitado a região, contribuindo para a visibilidade dos festivais.

Histórico e Futuro do Etnoturismo

Os festivais indígenas sempre ocorreram nas aldeias, mas há cerca de 20 anos começaram a se abrir para visitantes externos, inicialmente pelos Yawanawá e Katukina. “Se tornaram muito importantes para o fortalecimento das culturas, das vivências, da língua, da culinária e da união entre os povos”, comenta Francisca Arara, secretária dos Povos Indígenas do Acre. Ela destaca o crescente protagonismo feminino na organização desses eventos, um movimento que fortalece a cultura indígena e os festivais.

A ayahuasca tem sido uma mola propulsora desse movimento. O crescimento do interesse global pela bebida psicodélica, associada a pesquisas clínicas que demonstram seu potencial terapêutico, tem atraído cada vez mais pessoas ao Acre. No entanto, há preocupações entre os povos indígenas quanto ao reconhecimento do conhecimento ancestral sobre a ayahuasca. Debates sobre o tema ocorreram na última edição da Conferência Indígena da Ayahuasca, e o próximo encontro está previsto para janeiro de 2025.

O governador do Acre defende a valorização das tradições indígenas e relata sua própria experiência com a ayahuasca, destacando a importância de um uso seguro e contextualizado. “As medicinas da floresta são um patrimônio espiritual da humanidade”, afirma. O processo de reconhecimento da ayahuasca como patrimônio imaterial no Brasil está em andamento, com esforços para incluir o conhecimento tradicional indígena.

Perspectivas

A expectativa é que todos os eventos indígenas sejam incluídos no calendário oficial das festividades do Acre em breve. Nos próximos meses de julho e agosto, 10 festivais indígenas terão algum apoio do governo estadual, refletindo o crescente reconhecimento e apoio ao etnoturismo como uma ferramenta de preservação cultural e ambiental.

Essa integração de práticas tradicionais com o turismo sustentável não só promove a proteção da Amazônia, mas também fortalece a identidade cultural dos povos indígenas, gerando renda e desenvolvimento para as comunidades envolvidas.

Com informações de Carlos Minuano, autor do blog Psicodelicamente da CartaCapital

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